Obstáculos no caminho para o Pai

Pe. Nikolás Schwizer

 

Não há dúvida que muitos países possuem um grande amor à Santíssima Virgem. Mas chama a atenção que alguns povos tão marianos, não manifestem igual sentido para uma vinculação pessoal e profunda ao Pai de Cristo. E acontece muitas vezes que alguém cortou sua relação com Deus, tornou-se ateu, mas continua mantendo a relação com a Mãe de Deus; parece ser o último que se perde.

A razão desta situação não é difícil de entender, se olhamos de perto a realidade da família. O pai é, em muitas famílias, uma figura muito fraca. Em comparação com a mãe, é quase um estranho. Está ausente de casa durante todo o dia e, geralmente, não tem muita capacidade para o diálogo pessoal com os seus. Seu modo de falar é normalmente distante e duro. Em famílias mais pobres, é ele quem grita e bate, que é autoritário e injusto com os filhos, que é alcoólico e, por isso, maltrata a mãe.

Nos níveis médios e altos, a crise de paternidade não se manifesta tanto em violência. O pai é aí geralmente o grande ausente do lar: o que sempre está ocupado com coisas importantes, que não lhe deixam tempo para os filhos. Acredita que sua função paterna se reduz a trabalhar por sua família, a dar coisas materiais para os seus. Quantos filhos dão a entender claramente que preferiam ter menos dinheiro, e ter um pai mais próximo.

Para muitos, a palavra “pai” é uma palavra que só traz à lembrança rebeldia ou frustrações. Para os jovens feridos ou frustrados pelo pai ausente ou violento, não podemos dizer-lhes: Tenho uma boa noticia: Deus é Pai e te ama. Para jovens que tem averão ao seu pai e querem fugir dele, essa boa notícia de Deus Pai se transforma em uma má notícia.

Por isso, o Padre Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt, afirma que vivemos como o filho pródigo, em “estado de fuga da casa do Pai”. Em sua opinião, o problema do ateísmo moderno se deve, em primeiro lugar, a crise da família. “Tempos sem pais são tempos sem Deus”.

Crise de pai, crise de autoridade

Aqui reside a causa mais profunda da crise de autoridade, tanto na sociedade como na Igreja. No fundo, trata-se da aversão a uma autoridade que o homem de hoje identifica com a do próprio pai. A degeneração da autoridade familiar o leva a considerar abusiva e opressora qualquer autoridade. O homem moderno pensa que o próprio da autoridade é “mandar”. Numa cultura da eficácia, a autoridade se reduz a isso: a mandar, porque a ordem é o mais rápido.

Mas, a função da verdadeira autoridade é dar vida, fazer crescer. O modelo dessa autoridade é Deus Pai Todo Poderoso e seu reflexo, o Bom Pastor. Por isso, não se dá ordens para uma criança recém nascida. Simplesmente, a veste, a alimenta, a acaricia, a ensina.

Ninguém ensina uma criança a caminhar dando-lhe ordens, mas lhe dá a mão, anima-a. A ordem só tem sentido se ajuda a crescer. A autoridade, qualquer autoridade, só se justifica se está ao serviço da vida, como fonte de vida.

Que pobre é, frente a esta visão, o conceito atual de autoridade! Em todos os níveis, a autoridade humana foi-se distanciando de seu modelo, Deus Pai. Quem deveria refleti-lo, no plano religioso, político, profissionall e familiar, não o refletem. Por isso, para muitas pessoas, as palavras “pai” ou “autoridade”, lhes soam ocas ou lhes produzem aversão.

Como receberão o anúncio de um Pai providente que sempre nos contempla e que com poder infinito nos temem suas mãos? Esta é, sem dúvida, a pior e mais deprimente notícia que podem ouvir.

Perguntas para a reflexão

1. Presenteio o meu tempo predileto para a minha família?

2. Como foi minha relação com meu pai natural?

3. É fácil vincular-me com Deus Pai?

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